quarta-feira, 16 de maio de 2012

Realidade do aluno ou do educador?

Dedicado à Djárcia Santana

Já virou lugar-comum nos ambientes escolares, o discurso referente à importância da educação em relação à realidade sócio-cultural do alunado. Esse discurso sendo demasiadamente repetido me faz crer que os educadores estão mais dispostos a fazer uma leitura menos discriminatória da cultura de massa, uma vez que esse tipo de cultura é o mais consumido pela realidade sócio-cultural da maioria dos alunos. Com isso, aparentemente estamos diante de uma realidade mais democrática, menos excludente, menos elitista; e que a intolerância estética anda com seus dias contados.
Porém, até que ponto uma aceitação do discurso referente à importância do conhecimento com a realidade do aluno significa de fato uma aceitação desse discurso? Será que realmente essa estratégia anda sendo posta em prática? Será que a leitura que se faz do conhecimento vinculado a uma prática cotidiana do indivíduo anda sendo apenas compreendida como um mecanismo para a compreensão do conhecimento ou tem exercitado estabelecer uma prática com a diferença cultural no plano político?

Ao produzir um artigo acerca da música brega nas aulas de redação nas escolas públicas com o meu companheiro Roosevelt Vieira, aplicando entrevistas com professores da área, obtive a seguinte realidade: o educador aceita a idéia de articular a cultura cotidiana como forma de facilitar o conhecimento, mas sempre em meio ao depoimento faz questão de observar que apesar de importante para a compreensão do conhecimento, a cultura consumida pelo aluno não traz nada de novo que possa acrescentar a sua disciplina.
O que existe é um universo docente que hierarquiza os gostos,  para com isso afirmar sua posição na sociedade. O grande problema é que essa posição se revela em forma de autoridade. Por exemplo: o educador ao trazer o assunto figuras de linguagem, traz o repertório de Black Style para a partir dele detectar essas figuras, mas logo observa ao aluno que o discurso é pobre e escasso de figuras de linguagem. Resultado: tome Chico Buarque e Drummond guela abaixo. Engraçado é que muitas vezes o próprio educador  sai com seus amigos e se desmancha naquele pagodão feito para sons e carros potentes.

Ora, primeiramente eu acredito que não podemos intervir com esse tipo de opinião feita de pré-julgamentos, uma vez que não somos nós que da noite para o dia faremos esses alunos alterarem todo um hábito musical. E mais: que direito tem o educador em tentar fazer o aluno mudar seu hábito? O que ele pode e deve fazer é permitir um caminho pelo qual o aluno possa se confrontar com outras linguagens estéticas, mas a partir do instante em que ele aplica a cultura de massa na sala de aula e no final constrói um discurso contrário a essa cultura, o que ele faz é simplesmente reproduzir o velho discurso elitista.
Para mim, em uma ocasião como essa, o que deve ser observado é a possibilidade de o aluno compreender que mesmo o educador a quem ele cria uma referência, também consome a mesma cultura que a dele, mas que não deixa de ser capaz de exercitar suas críticas, de repensar os valores que são transmitidos nesse modelo de cultura. Ou seja, fazer esse aluno perceber que, assim como o educador, ele pode se divertir, sem que por isso precise abdicar do que ele se diverte, fazendo com que a cultura que ele consome não se resuma apenas a um mero entretenimento.
Eu penso que no momento em que o aluno percebe que seu professor não é um mero rato de bibliotecas, ou seja, que ele também é uma pessoa comum que se encontra diante da cultura de massa, ele pode construir uma relação de cumplicidade com ele. Estabelecendo essa cumplicidade, ele passará a ter um maior desejo pela disciplina, e havendo desejo, ele passará a compreender melhor o conteúdo, não só por que o conteúdo foi aplicado à realidade dele, mas também por que o educador termina mantendo uma relação horizontal com esse aluno, provocando uma identificação com o discurso desse aluno.
O educador precisa de uma vez por todas entender que a relação do conteúdo com a realidade do aluno não diz apenas a respeito de uma melhor compreensão do conteúdo por parte desse aluno. O que o educador tem que observar é que essa relação contextualizada do conhecimento deve provocar reconstruções que pairam no plano político, no reconhecimento da diversidade, na possibilidade das trocas, na efetiva prática da cidadania. O importante é respeitar o hábito do alunado fazendo com que esse alunado também não faça desse hábito uma simples apropriação automática e alienante.
Não é que o pagodão do Black Style, por exemplo, seja deplorável em figuras de linguagem, até por que todo discurso se sustenta em figuras de linguagem. O que cabe ao educador é provocar questões do tipo: o mercado abre espaços para outras temáticas? Por que será que a indústria da cultura lança ao mercado músicas que tendem a repetir a mesma temática e os velhos signos desgastados? O que leva esse mercado a manter esses discursos: seria para obter maiores lucros; ou seria também por questões ideológicas que se negam a aceitar discursos que venham a pôr em choque os valores objetivados por esse mercado?
Com esse tipo de relação estabelecida com a cultura de massa, o educador não faria opressões com as escolhas estéticas desses alunos; acabaria com a relação de abismos entre eles; além de possibilitar abrir novas feridas que estavam despercebidas aos olhos dos alunos. Para mim o legal é saber que o aluno chega a sua casa, assiste a sua novela com a consciência de que aquilo tudo não existe meramente dentro de uma normalidade, mas que tudo aquilo pode ser questionado e que deve ser questionado. Que o aluno relaxe e goze, mas sabendo que o gozo também tem seu preço, e que preço!

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