Por Vinícius Souza (Vina)
Dedicado a Daniel Moreira
Daniel Moreira é professor da disciplina de artes no Instituto Federal de Alagoas (IFAL) Campus Piranhas. Pode ser suspeito o que vou dizer, até mesmo por que eu tenho uma afinidade muito grande com ele, mas não o considero apenas um professor, realmente o vejo como um excelente profissional de opiniões bastante críticas. Tive a felicidade de junto com Daniel, trazer para Piranhas no dia 28 de abril a peça teatral “Cordel do amor sem fim” escrito por Cláudia Barral. A peça foi encenada no Auditório Miguel Arcanjo, localizado em Piranhas Velha.
Confesso que senti uma grande emoção. Não falo só do excelente profissionalismo do grupo. Falo sobre a forma como o público se posicionou acerca da manifestação cênica, mostrando-se capacitado em fazer uma leitura dela. No entanto, em um determinado momento da encenação, assistimos a uma situação na qual a atriz através de um belíssimo reflexo manifestado por uma luz de vela, passa a expor os seus seios. Como eu disse, tudo correu bem. Contudo Daniel me observou que alguns alunos manifestaram repulsa com a cena. Disseram que ela tinha fortes doses obscenas.
Neste ensaio eu pretendo trazer algumas discussões acerca de qual a diferença que vejo entre uma cena obscena e uma cena erótica; pretendo a partir desse debate provocar algumas questões acerca de certos discursos das músicas massivas consumidas geralmente pelos alunos para indagar sobre a forma como esses alunos encaram o obsceno e o erótico nessas músicas; e de como através desse tipo de afirmação nós podemos averiguar o quanto a nossa educação ainda se mantém em um nível de moralismo extremo quando o assunto se refere ao corpo e à sensualidade.
Antes que algum leitor apressado venha de antemão afirmar que as minhas opiniões são reproduções do discurso de Daniel, preciso observar que todas as abordagens expostas neste texto são resultados da forma como eu passei a questionar esses pontos através do papo que tive com o nosso educador das artes. Portanto, não cabe a nenhum leitor o direito de afirmar que essas opiniões se referem às concepções de Daniel. Sem nenhum receio eu digo claramente que todas as argumentações expostas aqui são opiniões provenientes do meu olhar em relação ao ocorrido.
Mesmo eu não tendo a intenção de trazer para este texto conceitos comprovados através de fontes acerca do assunto abordado, mas para mim existe uma diferença absurda entre o ato erótico e o ato obsceno. Reconheço que essas classificações carecem de características mais precisas, até por que toda e qualquer classificação não exprime de forma totalmente verdadeira suas características, sem contar que eu tenho plena consciência de que o valor e a concepção entre o erótico e o obsceno passa por um crivo que reflete muitas vezes os valores morais de uma classe hegemônica.
Mas para mim, em se tratando do erótico, o que existe é uma representação que busca novas traduções em relação ao corpo. Em uma cena que se quer erótica, o que existe é um diálogo com a linguagem corporal do ator. O que encontramos é a tentativa da sensibilidade que o corpo busca exprimir para o público. O erotizante alimenta a nossa imaginação transitando nos espaços da performance. A sensualidade é a palavra de ordem, ou seja, a expressão através do que culturalmente tratamos como belo. Nele encontramos a harmonia, a simetria, a proximidade com a perfeição.
A obscenidade não busca provocar a imaginação do público acerca do corpo. No obsceno as cenas tendem a ser retratadas de forma extremamente fiél e rasgante aos nossos olhos. A provocação extrapola os limites da sensualidade e parte para as associações diretas com o coito. Diferente do erótico onde a metáfora prepondera na teatralização do sensível e da sensualidade, no obsceno nós nos deparamos com a literalidade da expressão mais física da carne, além da obscenidade representar o que a cultura nos classifica como grotesco, chocante, repulsivo.
Por isso que para mim, o que a cena retratada na peça quis mostrar foi um lado sensual, um lado erótico que provocou a sensibilidade do nosso olhar. Enfim, uma cena que tinha como intenção nos presentear com a beleza performática daqueles seios refletidos pela luz da vela. Não vi em nenhum momento ao longo da nudez parcial da atriz qualquer intencionalidade em provocar o gozo absoluto em um contato direto vindo de uma intenção mais fecunda para a exposição do pornográfico, ou seja, para a espetacularização do ato carnalizado através do corpo.
Fiquei a me questionar acerca da idéia que os alunos que classificaram a cena como obscena possuem em relação à diferença entre o erótico e o obsceno. Será que eles encaram o discurso do pagode que eles tanto ouvem como obsceno, mas que aceitam esse obsceno por terem uma expectativa acerca da estrutura temática da música? Acho muito estranho que alguém que ouve músicas que repetem termos classificados como degradantes, encare como obscena aquela cena de expressões que provocam apenas uma profunda sensação de ritmos, desenhos, geometrias que buscam simplesmente revelar a sensualidade, a beleza.
Será que a repulsa excessiva que eles tiveram a ponto de encarar como um ato obsceno o momento daquela peça foi resultado de uma falta de hábito que eles possuem com a leitura da sensualidade recheada de metáforas? Será que houve o estranhamento do olhar de alguns alunos devido ao uso de novos códigos que a manifestação cênica trouxe e que terminou provocando o choque por ter sido uma situação inesperada? Mas por que não esperavam? Será que eles criaram uma idéia de seriedade na obra teatral a ponto de não conceber sequer um único momento de uma breve nudez?
Será que a repulsa excessiva que eles tiveram a ponto de encarar como um ato obsceno o momento daquela peça foi resultado de uma falta de hábito que eles possuem com a leitura da sensualidade recheada de metáforas? Será que houve o estranhamento do olhar de alguns alunos devido ao uso de novos códigos que a manifestação cênica trouxe e que terminou provocando o choque por ter sido uma situação inesperada? Mas por que não esperavam? Será que eles criaram uma idéia de seriedade na obra teatral a ponto de não conceber sequer um único momento de uma breve nudez?
Com esse tipo de reação, logo me bateu um questionamento acerca de qual nível se encontra a nossa educação quando o assunto se refere à sexualidade. Para mim, este tipo de postura reflete uma cultura ainda extremamente limitada aos modelos moralizantes acerca da sensualidade. Como posso enquanto educador conscientizar meus alunos acerca do assunto referente à sexualidade, se encontro resistências cheias de pudor como as desse tipo de perspectiva? Sim, pois se existe uma reação direcionada para esse tipo de comportamento é por que os alunos ainda se encontram submetidos a esses tabus.
Se alguns alunos reagem dessa forma, é por que não só eles são reflexos de educações submetidas a moralismos e tabus em suas famílias, mas também por que a própria conjuntura educacional, por ser reflexo da sociedade, termina por refletir em suas concepções esse tipo de discurso. Devemos lembrar que a escola está ligada à família e à sociedade em geral. Só sei que as estéticas preocupadas com novas propostas ainda vão passar por um longo caminho para conseguir fazer com que certos públicos compreendam que a sensualidade também pode ser revelada em uma extasiante poética.
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