domingo, 18 de março de 2012

O familiar e o estranho na educação

Por Vinícius Souza (Vina)

Esta semana resolvi dar continuidade à relação familiaridade/estranhamento na educação. Contudo, optei em fazer uma comparação entre a utilização da cultura massiva e a cultura alternativa nas salas de aula, observando que apesar desses dois tipos de cultura estabelecerem um diálogo entre eles, existe uma relação inconciliável entre os alunos e os docentes que termina por dificultar esse diálogo.
Quando eu falo em cultura massiva, eu estou me referindo às produções veiculadas excessivamente pela chamada cultura de massa. É o que muitos chamam de cultura voltada para o consumo, para o lucro das indústrias. Já no que se refere à cultura alternativa, eu quero falar sobre as formas de produção que são geralmente excluídas da indústria cultural e que tendem a não ser consumidas por um público majoritário.
Pois bem: em se tratando de realidades comuns aos alunos, é bastante normal percebermos que estes possuem uma relação muito familiarizada com a cultura massiva. O que podemos perceber é que esses alunos foram educados desde pequenos e ainda são educados por esse tipo de cultura. É inegável que eles mantêm uma relação bastante prazerosa, e, portanto, de identificação com ela.
Por outro lado, ao pensarmos na possibilidade da cultura alternativa em seus cotidianos, o que podemos averiguar é que existe uma total falta de conhecimento dos alunos acerca dela. A mídia massiva é tão intensa nas experiências cotidianas, que ao falarmos ou trazermos esse tipo de manifestação para as salas de aula, logo percebemos uma relação de repulsa dos alunos por esse tipo de cultura.
Para trabalhar um conteúdo exposto em sala de aula, o educador tem que saber transitar entre a familiaridade e o estranhamento. A cultura massiva seria a familiaridade e permitiria ao aluno uma maior compreensão do conteúdo por articulá-lo com sua vivência; e a cultura alternativa seria o estranhamento por permitir o contato com novas linguagens e com a quebra dos modelos convencionais.
O educador comete um erro gravíssimo se ele parte apenas para a aplicação da cultura massiva. Apesar de possibilitar ao aluno uma compreensão do conteúdo, quando o educador se prende a esse tipo de cultura, ele não cumpre com um dos grandes objetivos da educação que é a possibilidade de trazer ao aluno um leque maior de informação, apresentando outras formas de linguagens.
Mas o educador também comete um erro se ele traz apenas a cultura alternativa. Aplicar apenas esse tipo de cultura, se por um lado abre a possibilidade dos alunos se depararem com novas linguagens, não provoca uma compreensão mais clara acerca do conteúdo abordado na sala de aula pelo fato da cultura alternativa não fazer parte da realidade sócio-cultural do aluno, além de reforçar um elitismo estético já tão comum na rotina educacional.

Mas vamos aos problemas: a cultura massiva educa o indivíduo a buscar as coisas de forma muito prática. O entretenimento das mídias massivas possui esse objetivo: trazer o rotineiro, nada que venha a extrapolar o óbvio. Essa educação se revela nas experiências dos ambientes educacionais quando os alunos exigem que o educador traga de forma “mastigada” o conteúdo exposto em sala de aula.
Devido a essa forma de educação fast-food, o educador quando traz para a sala de aula a cultura alternativa, sente uma dificuldade muito grande, pois os alunos, além de não terem esse tipo de cultura em seu cotidiano, por estarem viciados na mesmice da cultura massiva, passivos em sua acomodação e em sua busca preguiçosa sempre pelo mais do mesmo, automaticamente se negam em aceitar a cultura alternativa.

Acredito que existe também uma culpa muito grande dos alunos por esse comodismo. Sim, o que percebo é que os discentes fazem questão de seguir apenas os modelos legitimados por uma maioria. Parecem muitas vezes carroças sendo guiadas pelos cavalos de uma raça chamada padronização. Não querem o novo. Muitas vezes não é medo pelo novo, é a preguiça por conhecer o novo.
Também vejo a culpa dos docentes. Não precisa ser muito atencioso para perceber que os docentes ainda insistem em uma idéia arrogante em classificar as coisas como cultura do bom gosto ou lixo cultural. Esse tipo de postura provoca um distanciamento enorme com esses alunos que, além de se acomodarem no discurso da massa, se intimidam com a prepotência classista dos docentes.
Resultado: por um lado temos a acomodação dos que não querem sair da massa; mas por outro, temos a acomodação dos que não querem deixar de auto-afirmar arrogantemente sua intelectualidade. Para dialogarmos os dois universos, temos que enfrentar de um lado a não-aceitação pelo novo por parte dos alunos; e do outro lado temos que quebrar a não-aceitação do óbvio por parte dos docentes.
O grande problema é que a utilização da cultura massiva abre espaços para uma compreensão do aluno acerca do conteúdo, mas esse conteúdo sendo apenas familiarizado não serve de nada, uma vez que o conhecimento tem que partir para um olhar crítico, e se utilizamos apenas a cultura massiva, o aluno se reduz ao óbvio e não se dá conta da contradição que permeia esse óbvio.
Já a utilização da cultura alternativa abre espaços para novas linguagens, mas se o educador se utiliza apenas dela, erra por fazer com que o aluno se adentre no estranhamento, mas sem a capacidade de compreender a lógica que permeia esse desconhecido, pelo fato do aluno não conseguir fazer uma ponte entre o conteúdo com as novas linguagens exploradas pela cultura alternativa.
Elitismo e acomodação: duas realidades existentes, e por enquanto, inconciliáveis. O educador tem que se permitir a enxergar também a beleza e os pontos positivos da cultura massiva e os alunos devem se estimular em se adentrar no universo da cultura alternativa, afinal, a relação familiaridade/estranhamento é de fundamental importância para uma construção crítica do conhecimento.

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