terça-feira, 6 de março de 2012

Um monstro chamado educação

Por Vinicius Souza (Vina)

Ao lermos teorias referentes a discussões acerca da educação, comumente nos deparamos com argumentos bastante redundantes. Sei lá, mas às vezes eu acho que a idéia de associar o desestímulo do aluno devido a uma educação alheia a sua realidade sócio-cultural, apesar de fazer muito sentido, não se justifica totalmente. Para mim, a desmotivação dos alunos passa por uma relação muito mais complexa.
Como forma de tentar esclarecer essa complexidade, eu vou me ater a alguns pontos que considero bastante pertinentes. Um deles se refere à desvalorização do professor de ensino infantil. O outro ponto diz respeito à expectativa desproporcional do professor em relação às expectativas dos alunos. A outra questão se refere à cultura da escrita e da leitura e o convívio do aluno em meio a essa cultura. E o último se refere à relação dicotômica entre lazer e trabalho provocada pelo discurso produtivista do capitalismo.
Como eu atentei mais acima, não é apenas a relação divorciada da educação com a realidade sócio-cultural do aluno que provoca a sua desmotivação. É evidente que isso acarreta grandes problemas, afinal, só nos interessamos por determinados assuntos quando conseguimos fazer a ligação dos conteúdos expostos em sala de aula com o cotidiano do discente, mas na minha experiência enquanto professor, eu vejo que o problema vai mais além.
Quando se trata de um professor do ensino infantil, o que percebemos é que esses profissionais ganham muito pouco justamente por não terem o valor merecido pela sociedade. Ora, devemos admitir que um bom conhecimento começa de sua base.  Quando os profissionais do ensino infantil não são reconhecidos, inevitavelmente seu estimulo profissional tende a cair. Resultado: os alunos chegam até o nível superior com déficits absurdos, com carência cognitiva evidente. Como um aluno pode ter estímulo pelo conhecimento se ele não possui senso crítico, uma vez que sua base operacional foi mal trabalhada?
É por isso que enquanto professores, o que notamos é uma dificuldade do aluno em associar os conceitos expostos em sala de aula com suas experiências cotidianas. Falta uma base que se encontra antes mesmo de qualquer conceito elementar ensinado na educação primária, afinal, o aluno já chega até essa fase com toda a sua base operacional deficiente. Digo isso, pois as reclamações acerca das dificuldades dos alunos em apreender os conteúdos são reclamações generalizadas, independente de qualquer disciplina.

Além de todas essas problemáticas extremamente complexas acerca das condições de prestígio social e financeira do profissional da educação infantil, não podemos esquecer que eles também foram vítimas do processo de ensino recebido na educação infantil. Com isso eu quero dizer que os professores por também não possuírem uma base bem construída, terminam refletindo suas dificuldades críticas em seus projetos pedagógicos com seus alunos. É o chamado efeito "bola de neve", ou seja, dficuldades que vão se transmitindo de geração à geração.
Porém, temos que convir que as condições materiais- principalmente em se tratando de um sistema caracterizado pelo trabalho enquanto mercadoria- é uma forma de sobrevivência para qualquer profissional, e este necessita de condições menos degradantes para cumprir de forma mais qualitativa o seu papel pedagógico. Ora, um professor da educação infantil, além de ser desvalorizado financeiramente, ao se deparar com a indiferença social acerca de seu papel, sente-se demasiadamente desestimulado e desmotivado em fazer bons projetos.
Uma boa condição financeira e um melhor reconhecimento, gera estímulos para que esses profissionais atuem de forma mais positiva em seus trabalhos. Recebendo uma quantia mais satisfatória, além de uma maior valorização da sociedade pelo seu trabalho, muitos desses profissionais não precisariam recorrer a outros empregos como forma de ascensão social. Tendo o reconhecimento devido e uma boa recompensa financeira, esses profissionais atuariam com um maior prazer em seu dia a dia profissional.

Além disso, vejo professores que, por mais que tragam questões ligadas às realidades sócio-culturais dos alunos, insistem em se prender a uma valorização do conhecimento de acordo com sua ótica.  Para isso, faz-se necessário compreender os valores etários desses alunos, isto é, os valores sociais transmitidos pelos seus meios sociais. Do contrário, não adianta trazermos apenas recursos que se encontrem diretamente ligados às suas realidades sócio-culturais se insistirmos em compreender a aprendizagem apenas sob a nossa perspectiva.

Devemos fazer as seguintes perguntas: a importância que enxergamos no conhecimento serve para quem? Quais são as expectativas dos alunos acerca desse conhecimento objetivado por nós? O que pretendem esses alunos? Para isso acredito que os professores devem saber suas faixas etárias, suas formas de identificação, seus gostos, suas expectativas dentro de seus grupos sociais. Um estímulo ao conhecimento só se dará de forma mais qualitativa a partir do momento em que os professores buscarem compreender as expectativas e o sentido que esses alunos dão à aprendizagem.

Juntando todas essas dificuldades e complexidades, nós também temos a problemática da própria cultura. É nítido que pelo menos se tratando de Brasil, a cultura da leitura e da escrita não é construída no sujeito ao longo de sua história. Fica difícil mostrar a importância do conhecimento quando os alunos vivem em meio a uma realidade familiar que não mostra exemplos de exercício com o conhecimento. Vale lembrar que esse conhecimento também não existe na cultura em geral. Somos educados pela cultura dos meios massivos.
Por fim, outro ponto de bastante importância e que geralmente tende a ser relegado inclusive pelas teorias preocupadas com a educação, refere-se a relação divorciada entre o lazer e o trabalho. Em um sistema caracterizado pela produtividade como é o caso do capitalismo, as responsabilidades foram separadas da ludicidade. Ou seja, o conhecimento, algo da responsabilidade do aluno, torna-se uma mera labuta ao invés de assumir uma natureza criativa, divertida.

Somando o fato da escola, por ser reflexo dessa cultura produtivista, trazer ao aluno essa forma de conhecimento entediante, ainda encontramos essa relação distorcida que o discente faz acerca do conhecimento. Conhecer não significa prazer, e sim, responsabilidades árduas. Os trabalhos são feitos de forma cronometrada, o excesso de conteúdo não disponibiliza um espaço para o aluno criar, desenvolver, brincar de conhecer. Tudo é programado. O conhecimento se resume a meros controles sociais servientes à produtividade tão aclamada pelo capitalismo.
É nítido que a forma como o conhecimento é colocado nas salas de aula assume um caráter mecanicista, rotineiro, padronizado, ou seja, um conhecimento que traz todas as características do contexto industrializado o qual se define justamente pela sua repetitividade e pela sua monótona serialidade. O professor sequer tem tempo de poder trabalhar tranquilamente seu conteúdo, utilizando-se de estratégias mais motivantes, pois a própria estrutura educional cobra em suas cadernetas uma vasta gama de conteúdo para ser trabalhada no período letivo.

Portanto, de nada valerá trazer ferramentas e novos recursos ligados a realidade sócio-cultural do discente se não refizermos toda essa idéia construida acerca do conhecimento. Acredito que uma valorização e uma melhor remuneração para os professores do ensino infantil tenda a melhorar a situação; um olhar menos fechado dos docentes acerca dos reais interesses dos alunos em relação ao conhecimento, assim como uma conscientização por longo prazo às familias e à cultura sobre a importância do conhecimento; e por fim, re-estabelecer um diálogo menos conflitivo entre o prazer e a aprendizagem.

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