Por Vinícius Souza (Vina)
Estava me lembrando de uma situação vivida por mim enquanto docente. Eu estava na sala de professores, mas não estava suportando o papo que rolava entre eles. Como era o horário do intervalo, resolvi me sentar com um aluno no chão do pátio. Meu interesse naquele aluno se deveu ao fato dele estar tocando violão e por ele fazer parte do grêmio estudantil. Aproveitei e fiquei a dialogar com ele acerca da relação entre a produção musical no Brasil com a política cultural.
No entanto, fui chamado pelo coordenador. Pensei que me falaria sobre algum projeto, mas não. Ele me chamou atenção para o fato de eu ficar sentado com um aluno no chão, pois ficava desconfortável para a coordenação se um pai de aluno chegasse e me visse daquela forma com um aluno, além de me dizer que os alunos poderiam me desrespeitar enquanto professor pelo meu comportamento, uma vez que era importante que as relações ficassem mais definidas entre a gente.
Confesso que cheguei a questionar acerca de meu comportamento, mas logo depois aquilo tudo se tornou bastante confuso. Nossa, eu estava apenas batendo um papo! Não sabia ele que aquele papo tinha me inspirado levar um debate para a sala, visto que eu discutia com meus alunos sobre cultura popular, cultura de massa e folclore. Ora, uma discussão referente à relação do elitismo da intelectualidade com a arte seria de profunda importância para esclarecer o assunto.
Pergunto: será que se eu ficasse na sala dos professores falando sobre aumento salarial eu teria a inspiração que tive? Como eu poderia afirmar que aquela minha conduta poderia ser vista como prejudicial para o meu conteúdo que pensei em expor na sala de aula? Será que os pais não me agradeceriam? Será que eu levando aquelas problemáticas eu retiraria meu papel de professor e os alunos me desvalorizariam por aquilo simplesmente por que eu me sentei no chão com um deles?
Eu fico extremamente indignado com as colisões que eu encontro entre o discurso pedagógico e a realidade dos ambientes educacionais. Ora, no discurso as teorias pedagógicas querem ser livres, querem que a gente trate os alunos de forma igual, querem que os alunos se sintam capazes de enxergar o educador como um profissional capaz de possibilitar o diálogo. O discurso geralmente se encontra recheado de liberdades de expressão, contrário a um ambiente educacional sisudo.
Por outro lado, o que eu observo é que o ambiente educacional é sisudo. Não há como negar que apesar do discurso exigir uma mobilidade maior nas relações estabelecidas entre professores e alunos, nossa educação é caretinha pra caramba. Nossa educação se caracteriza pelo forte autoritarismo, por uma estúpida idéia de perfeição limitada a modelos de comportamento. Tudo se resume a tentativa de manter as coisas dentro de uma ordem que cheira a hierarquia.
Não achem que eu sou a favor da liberdade sem limites. Sei que a vida exige um compromisso, e inevitavelmente precisamos dos limites, ou seja, precisamos dos códigos de comportamento e de hierarquia. Contudo, existe uma grande diferença entre aceitar a organização das coisas e as funções delegadas a cada profissional e querer que as organizações e as funções se limitem a regrinhas alienadas que não questionam até que limite suas validades são necessárias ou não para o bom funcionamento do sistema.
Digo isso, pois ficou claro que para o coordenador a preocupação se limitava a forma como cada um veria a minha condição enquanto professor, isto é, a uma etiqueta. Em nenhum momento meu querido camarada se questionou em até que limite aquele regulamento moral imposto era condizente com a realidade ou não. Enfim, o que posso dizer é que havia naquela proibição apenas uma imagem preocupada com a ordem, como se ela inexistisse com o meu comportamento.
O fato de um professor se sentar com um aluno no chão do pátio não significa dizer que esse professor deixe de ter compromisso com o seu trabalho. A responsabilidade não se anula devido a uma escolha mais informal que eu estabeleci enquanto educador. Não tem nada a ver responsabilidade com excessos de formalismos. Se fosse assim nenhum camarada de terno e gravata cometeria suas improbidades administrativas na nossa defasada maquina pública como vemos comumente.
Em nenhum momento eu precisei largar minha postura profissional apenas pelo fato de eu ter me sentado com um aluno. Em muitos casos, o grande aprendizado ocorre em situações como a do tipo que vivi com meu aluno. Profissionalismo não necessariamente precisa ter ar de seriedade. A seriedade deve existir sempre, mas não necessariamente ela precisa ser enfadonha e monótona. Posso muito bem ser sério e profissional conversando informalmente com qualquer aluno.
Infelizmente vivemos em uma educação tão produtivista que em nenhum momento sabe unir seriedade com diversão. O que posso constatar em uma situação como essa vivida por mim é que a educação se limita a entender que responsabilidade se limita aquilo que consideramos como sério, monótono e cansativo. Sim, tudo aquilo que seja sinônimo de labuta, ou seja, de tudo aquilo que não abra espaço para a inovação e para uma relação mais humana entre educador e aluno.
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