quinta-feira, 31 de maio de 2012

Cultura e diversidade nas salas de aula

Por Vinícius Souza (Vina)

Devido às experiências que tenho me deparado com os meus alunos, eu tenho sentido a obrigação de repensar alguns de meus conceitos acerca da cultura de massa. O que posso dizer de antemão é que, o que tenho constatado de forma bastante clara, é que o público-consumidor dessa cultura assume muitas vezes uma posição bastante cômoda acerca do uso que ele faz dela.
Mesmo admitindo essa nítida postura acomodada diante desse universo estético, eu ainda acredito que esse público é capaz não só de fazer uma re-leitura acerca da produção cultural que ele consome, mas também é capaz de fazer uma leitura bastante crítica no que diz respeito a algumas estéticas que tendem a não ser recorrentes em seu cotidiano cultural. Mas como fazer isso?
Algumas questões referentes ao uso da cultura de massa têm me provocado muitas inquietações. Pretendo neste texto, tentar propor um caminho capaz de mostrar o quanto o educador pode fazer com que esse público assuma uma condição atuante diante da cultura massiva, mas para isso, preciso responder uma questão: o que faz com que esse público se comporte de forma passiva?
Para isso, elaborei as seguintes questões: será que é o caráter excludente das indústrias que não possibilita aos consumidores um acesso a outras linguagens? Será que essas indústrias conseguem educar o público impondo seus valores? Ou a comodidade desse público é fruto de uma cultura marcada pela repetitividade que tira todo o senso de curiosidade por parte dele?
Sabemos que a cultura de massa peca bastante em seu caráter segregador. Ao entrarmos em contato com um meio de comunicação massivo, o que notamos é a redução de produções culturais em sua programação. A cultura de massa se preocupa em encontrar um tipo médio de consumidor. Por isso ela tende a excluir uma infinidade de outras linguagens que compõe a cultura em geral.
Essa afirmação poderia justificar o porquê do público consumidor da cultura massiva tender a insistir em se negar a aceitar outras linguagens. Contudo, eu pergunto: mas não teria esse público um acesso maior a outras fontes como a internet, emissoras televisivas ou de rádios mais alternativas que possibilitariam a eles entrarem em contato com outras tendências culturais?
O outro ponto diz respeito à imposição ideológica da mídia. Posso dizer que acredito bastante no poder de imposição midiática, mas ainda me debato com a seguinte problemática: uma emissora daria certo em sua grade de programação se houvesse um público que optasse em conhecer outras linguagens? Seria que o público-consumidor da cultura massiva de fato é tão apático assim?
Pensar assim, seria afirmar que o público-consumidor da cultura de massa seria sem subjetividades. Que o grande empresariado tem o grande poder de disseminar seu discurso, isso não tem como negarmos, mas esse público não pode ser visto como um mero objeto manuseado. Ele tem uma história, valores estéticos e morais apreendidos em suas experiências cotidianas.
Por fim, poderemos pensar no ponto referente à cultura repetitiva  na qual o público-consumidor se encontra submetido. Sabemos que o sistema capitalista, por se resumir ao lucro, e, portanto, à excessiva produtividade, tem feito do cotidiano uma mera rotina mecanizada. A pressa, o automatismo burocrático tem impossibilitado o homem de se alimentar da contemplação da vida.
É a partir dessa contemplação da vida que o homem vai necessitar buscar outros caminhos, nunca vai esgotar-se em sua busca pela mágica que permeia a vida. Um homem não submetido a uma rotina serializada e produtiva é um homem que, por pensar sobre si, e portanto, se reconhecer como parte da realidade, sente a necessidade de revelar, ou seja, de conhecer outras realidades.
Portanto, apesar da cultura de massa ser segregadora e ter uma intencionalidade ideológica marcada por características paternalistas, a falta de curiosidade do indivíduo em buscar se adentrar em outras linguagens não se reduz a elas. Não existiria segregação, nem ideologia, nem paternalismo certo se o indivíduo atuasse em um contexto aberto para a poética e para a reflexão.
Depois de tentar mostrar o que leva o público massivo a ser acomodado às linguagens massivas, cabe pensarmos na seguinte questão: como o educador pode fazer com que esse público busque reconhecer a importância de se aventurar em outras linguagens além da cultura massiva? Quais são os caminhos que possibilitarão com que esse público-consumidor chegue a esse ponto?
Em se tratando da questão excludente da cultura massiva, o educador deveria se utilizar de uma ferramenta tão cotidiana da maioria dos alunos que é a internet. Mostrar que nela existem blogs, sites que disponibilizam outras músicas e demais produções artísticas, e que o mundo da cultura consumida por eles não se reduz apenas às rádios e emissoras comerciais de televisão.
Mostrando a outra face da internet, os discentes perceberiam que a internet é um mundo que apesar de ter seus perigos, traz muitas riquezas. Pedindo que esses alunos encontrassem em casa produções que estão fora do circuito massivo, o educador possibilitaria com que os alunos aprendessem a pesquisar e a conhecer outros mundos relegados por eles.
Pedindo para trazer músicas e vídeos excluídos do sistema oficial das mídias massivas, caberia ao educador propor que os alunos produzissem textos acerca deles. Com isso, o educador permitiria ao aluno perceber que ele pode ser um agente atuante e construtor de opiniões. Isso estimularia a subjetividade e evitaria com que os alunos se submetessem meramente à onda do momento.
Outro ponto seria a metodologia aplicada pelo educador em suas aulas. Ao invés de fazer do espaço da sua disciplina, apenas um espaço reprodutor dos modelos produtivistas, ele deveria fazer com que esse espaço fosse aberto às novas formulações de idéias e às trocas como um caminho para a prática da democracia e de um verdadeiro exercício com a cidadania.

domingo, 27 de maio de 2012

O bobo idiotizado e o bobo provocativo na educação

Por Vinícius Souza (Vina)

Trabalhar com alunos do ensino médio exige uma criatividade do educador. Ao expor um conteúdo em sala de aula, o docente tem que ter cuidado em não explanar os conceitos de forma muito formalizada. Para que o conteúdo seja bem trabalhado, é necessário que o educador tenha em vista quais os reais interesses do discente, quais os temas que provocam interesse nesse público.

Pois bem: enquanto educador eu tento trazer exemplos para esclarecer os conteúdos expostos em sala de aula de acordo com os temas geralmente problematizados pelos alunos. Falar sobre questões referentes ao sexo, às relações conjugais, além de trazer comparações com comportamentos ditos grotescos como defecar, mijar, trepar, tem provocado a atenção dos alunos.

Contudo, o que venho percebendo é que até o instante em que os temas abordados ficam no que classificamos como bobo, tudo vai bem, mas ao associar esse bobo às questões mais complexas, alguns alunos rapidamente voltam a ficar dispersos. Em outras palavras, os alunos se prendem ao bobo pelo bobo. Ao mostrar a complexidade do bobo, eles se negam a dar continuidade ao debate.

Quero discutir sobre o porquê da necessidade dos alunos optarem em se prender ao bobo pelo bobo negando as análises mais aprofundadas. Para isso, eu acho de grande importância fazer uma breve descrição acerca do que eu entendo como comprometimento, que vou associar ao que chamo de bobo provocativo, e o dês-comprometimento, o que denominarei de bobo idiotizado.

A partir disso, eu quero mostrar o quanto à aplicação da cultura de massa e da cultura de vanguarda são importantes para um re-questionamento acerca dessas definições, possibilitando os alunos perceberem que dentro do bobo idiotizado nós podemos provocar novas indagações, assim como dentro do bobo provocativo também podemos tornar o bobo alienante.

Ao falarmos sobre uma postura comprometida, geralmente temos a idéia de seriedade. Para uma pessoa que age dessa forma, os problemas da realidade tendem a ser sempre vistos como algo condenável. O comprometimento é tudo que seja engajado. O problema é quando levamos a idéia do comprometimento como algo que não abre espaço para o relaxamento, para o lúdico.

A excessiva seriedade das coisas, ao invés de provocar uma proximidade do indivíduo, termina por afastá-lo, pois nem sempre estamos com disponibilidade em encararmos as coisas de forma rígida, seca e calculada. O indivíduo, mesmo sabendo que a realidade é condenável em muitas questões, busca sublimar suas dores ao investir descargas de prazer em muitos momentos de sua vida

Em se tratando de dês-comprometimento, temos a idéia da falta de seriedade com as coisas. Uma pessoa que age de forma descomprometida tende a ser vista como uma pessoa que encara a realidade sempre de forma piadística. O problema do descompromisso é quando levamos o seu sentido meramente para a fuga, ou seja, de escapatória com os reais problemas da existência.

Olhar as coisas apenas de forma descomprometida faz com que o indivíduo se torne esvaziado de projetos capazes de alterar o rumo das coisas. Mesmo que o indivíduo busque substituir suas dores através do prazer, não significa que ele não esteja inserido em um contexto, e que por isso mesmo, tem um papel de grande importância para a realidade na qual está inserido.

Portanto, o fato de sermos comprometidos, não anula a possibilidade de levarmos a vida com mais prazer; assim como o fato de sermos descomprometidos não anula a possibilidade de levarmos a vida com maior seriedade. É por isso que eu acho que somos capazes de encontrar seriedades no “não-sério”, assim como podemos ser brincantes em nosso compromisso com a vida.

Como podemos detectar isso na cultura de massa e na vanguarda? Como os alunos e os docentes lidam com o bobo idiotizado e com o bobo provocativo? Como os educadores e os alunos têm se relacionado com a cultura de massa e com a vanguarda? Será que o trânsito entre o engajado e o lúdico tem sido trabalhado pelos alunos e pelos docentes? É o que vamos discutir a partir de agora.

A vanguarda, por trazer todo um projeto político de conscientização, tem a capacidade de brincar com a rigidez da realidade. O importante é provocar o olhar, é chamar atenção acerca das contingências que pairam em nosso dia a dia. Devido a isso ela tende a inverter as relações de valores classificatórios, provocando rupturas nos modelos tradicionalmente estabelecidos.

Com isso, a vanguarda tende a trazer em seus discursos a ironia, a piada, o pastiche, a paródia. Contudo, essa brincadeira tem uma finalidade: questionar a mediocridade de tudo aquilo que a sociedade concebe como verdade. A partir do patético, a vanguarda busca revelar o contraditório. Em outras palavras, o que a vanguarda quer é manifestar o bobo de forma provocativa.

Diferente da vanguarda, a cultura de massa não é definida como uma manifestação preocupada com um projeto político de conscientização. Com a finalidade de obter lucros e de não perder um público-consumidor cativo, a cultura de massa não tem o objetivo de provocar rupturas no sistema. Ao contrário. O que a cultura de massa busca é insistir na repetição de modelos morais.

A cultura de massa quando traz a ironia e a piada, não traz com o intuito de provocar um re-questionamento sobre a farsa das verdades, mas sim para manter o receptor em seu lugar. A paródia da cultura de massa, antes de desestabilizar os valores oficiais, serve para a evasão e para o mero entretenimento. É por isso que o bobo no discurso massivo se reduz ao bobo idiotizado.

Pelo fato dos alunos culturalmente viverem em meio ao modelo de cultura massiva, essa necessidade de se prender ao bobo idiotizado se faz bastante evidente. Como dito no inicio, ao se falar acerca do bobo pastelão em sala de aula, nós conseguimos a atenção do aluno, mas ao mostrarmos a relação desse bobo com problemáticas geradas pelos conteúdos expostos, novamente sentimos a dispersão.

Por outro lado, quando o educador traz a vanguarda para as salas de aula, ele tende a fazer dela uma verdade absoluta, recheada de obscurantismos, prolixidades e afirmações classistas. Quanto à cultura de massa, mesmo sabendo que eles não estando livres dela, insistem em trazer classificações pejorativas como mau gosto, lixo cultural, público alienado, cultura descartável, etc.

Resultado: nem os alunos fogem da leitura simplista dos modelos da cultura massiva,uma vez que o educador, ao invés de trazê-la de forma crítica, simplifica essa cultura de forma elitista e distanciada; nem estimulam os alunos a brincarem de se confrontar com os discursos da vanguarda por torná-la um mero enfeite descontextualizado da realidade do discente.

Dessa forma, tanto a cultura de massa se reduz a um discurso alienante, visto que a rejeição pela rejeição não faz com que o aluno faça uma leitura critica dela; assim como a vanguarda se torna uma manifestação alienante também pelo fato dos discentes não se verem capazes de interpretá-la por serem apresentados a ela de forma distanciada e alheia às suas reais necessidades.

Cabe ao educador propor um trânsito entre esses dois universos estéticos. Só havendo um reconhecimento e um exercício de se encarar essas duas manifestações sem segregações e sem elitismos, é que os alunos passarão a perceber que o bobo idiotizado da cultura de massa pode ser visto de forma provocativa, e que a aparente "loucura" da vanguarda respira lucidez.

Como podemos perceber, o comprometimento da vanguarda quando passa a ser posto de forma rígida, série e douta, tende a ser descomprometida por não ser capaz de provocar nenhum projeto útil que parta da ação dos alunos. Se a cultura de massa passa a ser questionada e relida, o seu descompromisso pode se revelar de forma comprometida com o mundo.

Por isso sou contra a essas classificações que separam o que pode ser útil do que não pode ter utilidade alguma. Muitas vezes o dito discurso crítico pode se tornar alienante, assim como o discurso "não-crítico" pode ser emancipatório. Tudo isso depende da forma como os olhares passam a ser exercitados ao se depararem com certos tipos de discursos.

Para que o bobo idiotizado não se acomode na casa da intelectualização; nem que o bobo provocativo repudie a idéia de explorar a casa da alienação, é necessário que o educador faça um diálogo entre eles. Para isso, deve se deixar de lado a arrogância estética, como também o simplismo discursivo acerca da cultura de massa. Só assim a idiotização será provocativa.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

A educação entre o erótico e o obsceno


Por Vinícius Souza (Vina)

                                                                                                                                                                 Dedicado a Daniel Moreira

Daniel Moreira é professor da disciplina de artes no Instituto Federal de Alagoas (IFAL) Campus Piranhas. Pode ser suspeito o que vou dizer, até mesmo por que eu tenho uma afinidade muito grande com ele, mas não o considero apenas um professor, realmente o vejo como um excelente profissional de opiniões bastante críticas. Tive a felicidade de junto com Daniel, trazer para Piranhas no dia 28 de abril a peça teatral “Cordel do amor sem fim” escrito por Cláudia Barral. A peça foi encenada no Auditório Miguel Arcanjo, localizado em Piranhas Velha.
Confesso que senti uma grande emoção. Não falo só do excelente profissionalismo do grupo. Falo sobre a forma como o público se posicionou acerca da manifestação cênica, mostrando-se capacitado em fazer uma leitura dela. No entanto, em um determinado momento da encenação, assistimos a uma situação na qual a atriz através de um belíssimo reflexo manifestado por uma luz de vela, passa a expor os seus seios. Como eu disse, tudo correu bem. Contudo Daniel me observou que alguns alunos manifestaram repulsa com a cena. Disseram que ela tinha fortes doses obscenas.
Neste ensaio eu pretendo trazer algumas discussões acerca de qual a diferença que vejo entre uma cena obscena e uma cena erótica; pretendo a partir desse debate provocar algumas questões acerca de certos discursos das músicas massivas consumidas geralmente pelos alunos para indagar sobre a forma como esses alunos encaram o obsceno e o erótico nessas músicas; e de como através desse tipo de afirmação nós podemos averiguar o quanto a nossa educação ainda se mantém em um nível de moralismo extremo quando o assunto se refere ao corpo e à sensualidade.
Antes que algum leitor apressado venha de antemão afirmar que as minhas opiniões são reproduções do discurso de Daniel, preciso observar que todas as abordagens expostas neste texto são resultados da forma como eu passei a questionar esses pontos através do papo que tive com o nosso educador das artes. Portanto, não cabe a nenhum leitor o direito de afirmar que essas opiniões se referem às concepções de Daniel. Sem nenhum receio eu digo claramente que todas as argumentações expostas aqui são opiniões provenientes do meu olhar em relação ao ocorrido.
Mesmo eu não tendo a intenção de trazer para este texto conceitos comprovados através de fontes acerca do assunto abordado, mas para mim existe uma diferença absurda entre o ato erótico e o ato obsceno. Reconheço que essas classificações carecem de características mais precisas, até por que toda e qualquer classificação não exprime de forma totalmente verdadeira suas características, sem contar que eu tenho plena consciência de que o valor e a concepção entre o erótico e o obsceno passa por um crivo que reflete muitas vezes os valores morais de uma classe hegemônica.
Mas para mim, em se tratando do erótico, o que existe é uma representação que busca novas traduções em relação ao corpo. Em uma cena que se quer erótica, o que existe é um diálogo com a linguagem corporal do ator. O que encontramos é a tentativa da sensibilidade que o corpo busca exprimir para o público. O erotizante alimenta a nossa imaginação transitando nos espaços da performance.  A sensualidade é a palavra de ordem, ou seja, a expressão através do que culturalmente tratamos como belo. Nele encontramos a harmonia, a simetria, a proximidade com a perfeição.
A obscenidade não busca provocar a imaginação do público acerca do corpo. No obsceno as cenas tendem a ser retratadas de forma extremamente fiél e rasgante aos nossos olhos. A provocação extrapola os limites da sensualidade e parte para as associações diretas com o coito. Diferente do erótico onde a metáfora prepondera na teatralização do sensível e da sensualidade, no obsceno nós nos deparamos com a literalidade da expressão mais física da carne, além da obscenidade representar o que a cultura nos classifica como grotesco, chocante, repulsivo.
Por isso que para mim, o que a cena retratada na peça quis mostrar foi um lado sensual, um lado erótico que provocou a sensibilidade do nosso olhar. Enfim, uma cena que tinha como intenção nos presentear com a beleza performática daqueles seios refletidos pela luz da vela. Não vi em nenhum momento ao longo da nudez parcial da atriz qualquer intencionalidade em provocar o gozo absoluto em um contato direto vindo de uma intenção mais fecunda para a exposição do pornográfico, ou seja, para a espetacularização do ato carnalizado através do corpo.
Fiquei a me questionar acerca da idéia que os alunos que classificaram a cena como obscena possuem em relação à diferença entre o erótico e o obsceno.  Será que eles encaram o discurso do pagode que eles tanto ouvem como obsceno, mas que aceitam esse obsceno por terem uma expectativa acerca da estrutura temática da música?  Acho muito estranho que alguém que ouve músicas que repetem termos classificados como degradantes, encare como obscena aquela cena de expressões que provocam apenas uma profunda sensação de ritmos, desenhos, geometrias que buscam simplesmente revelar a sensualidade, a beleza.

Será que a repulsa excessiva que eles tiveram a ponto de encarar como um ato obsceno o momento daquela peça foi resultado de uma falta de hábito que eles possuem com a leitura da sensualidade recheada de metáforas? Será que houve o estranhamento do olhar de alguns alunos devido ao uso de novos códigos que a manifestação cênica trouxe e que terminou provocando o choque por ter sido uma situação inesperada? Mas por que não esperavam? Será que eles criaram uma idéia de seriedade na obra teatral a ponto de não conceber sequer um único momento de uma breve nudez?
Com esse tipo de reação, logo me bateu um questionamento acerca de qual nível se encontra a nossa educação quando o assunto se refere à sexualidade. Para mim, este tipo de postura reflete uma cultura ainda extremamente limitada aos modelos moralizantes acerca da sensualidade. Como posso enquanto educador conscientizar meus alunos acerca do assunto referente à sexualidade, se encontro resistências cheias de pudor como as desse tipo de perspectiva? Sim, pois se existe uma reação direcionada para esse tipo de comportamento é por que os alunos ainda se encontram submetidos a esses tabus.
Se alguns alunos reagem dessa forma, é por que não só eles são reflexos de educações submetidas a moralismos e tabus em suas famílias, mas também por que a própria conjuntura educacional, por ser reflexo da sociedade, termina por refletir em suas concepções esse tipo de discurso. Devemos lembrar que a escola está ligada à família e à sociedade em geral. Só sei que as estéticas preocupadas com novas propostas ainda vão passar por um longo caminho para conseguir fazer com que certos públicos compreendam que a sensualidade também pode ser revelada em uma extasiante poética.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Realidade do aluno ou do educador?

Dedicado à Djárcia Santana

Já virou lugar-comum nos ambientes escolares, o discurso referente à importância da educação em relação à realidade sócio-cultural do alunado. Esse discurso sendo demasiadamente repetido me faz crer que os educadores estão mais dispostos a fazer uma leitura menos discriminatória da cultura de massa, uma vez que esse tipo de cultura é o mais consumido pela realidade sócio-cultural da maioria dos alunos. Com isso, aparentemente estamos diante de uma realidade mais democrática, menos excludente, menos elitista; e que a intolerância estética anda com seus dias contados.
Porém, até que ponto uma aceitação do discurso referente à importância do conhecimento com a realidade do aluno significa de fato uma aceitação desse discurso? Será que realmente essa estratégia anda sendo posta em prática? Será que a leitura que se faz do conhecimento vinculado a uma prática cotidiana do indivíduo anda sendo apenas compreendida como um mecanismo para a compreensão do conhecimento ou tem exercitado estabelecer uma prática com a diferença cultural no plano político?

Ao produzir um artigo acerca da música brega nas aulas de redação nas escolas públicas com o meu companheiro Roosevelt Vieira, aplicando entrevistas com professores da área, obtive a seguinte realidade: o educador aceita a idéia de articular a cultura cotidiana como forma de facilitar o conhecimento, mas sempre em meio ao depoimento faz questão de observar que apesar de importante para a compreensão do conhecimento, a cultura consumida pelo aluno não traz nada de novo que possa acrescentar a sua disciplina.
O que existe é um universo docente que hierarquiza os gostos,  para com isso afirmar sua posição na sociedade. O grande problema é que essa posição se revela em forma de autoridade. Por exemplo: o educador ao trazer o assunto figuras de linguagem, traz o repertório de Black Style para a partir dele detectar essas figuras, mas logo observa ao aluno que o discurso é pobre e escasso de figuras de linguagem. Resultado: tome Chico Buarque e Drummond guela abaixo. Engraçado é que muitas vezes o próprio educador  sai com seus amigos e se desmancha naquele pagodão feito para sons e carros potentes.

Ora, primeiramente eu acredito que não podemos intervir com esse tipo de opinião feita de pré-julgamentos, uma vez que não somos nós que da noite para o dia faremos esses alunos alterarem todo um hábito musical. E mais: que direito tem o educador em tentar fazer o aluno mudar seu hábito? O que ele pode e deve fazer é permitir um caminho pelo qual o aluno possa se confrontar com outras linguagens estéticas, mas a partir do instante em que ele aplica a cultura de massa na sala de aula e no final constrói um discurso contrário a essa cultura, o que ele faz é simplesmente reproduzir o velho discurso elitista.
Para mim, em uma ocasião como essa, o que deve ser observado é a possibilidade de o aluno compreender que mesmo o educador a quem ele cria uma referência, também consome a mesma cultura que a dele, mas que não deixa de ser capaz de exercitar suas críticas, de repensar os valores que são transmitidos nesse modelo de cultura. Ou seja, fazer esse aluno perceber que, assim como o educador, ele pode se divertir, sem que por isso precise abdicar do que ele se diverte, fazendo com que a cultura que ele consome não se resuma apenas a um mero entretenimento.
Eu penso que no momento em que o aluno percebe que seu professor não é um mero rato de bibliotecas, ou seja, que ele também é uma pessoa comum que se encontra diante da cultura de massa, ele pode construir uma relação de cumplicidade com ele. Estabelecendo essa cumplicidade, ele passará a ter um maior desejo pela disciplina, e havendo desejo, ele passará a compreender melhor o conteúdo, não só por que o conteúdo foi aplicado à realidade dele, mas também por que o educador termina mantendo uma relação horizontal com esse aluno, provocando uma identificação com o discurso desse aluno.
O educador precisa de uma vez por todas entender que a relação do conteúdo com a realidade do aluno não diz apenas a respeito de uma melhor compreensão do conteúdo por parte desse aluno. O que o educador tem que observar é que essa relação contextualizada do conhecimento deve provocar reconstruções que pairam no plano político, no reconhecimento da diversidade, na possibilidade das trocas, na efetiva prática da cidadania. O importante é respeitar o hábito do alunado fazendo com que esse alunado também não faça desse hábito uma simples apropriação automática e alienante.
Não é que o pagodão do Black Style, por exemplo, seja deplorável em figuras de linguagem, até por que todo discurso se sustenta em figuras de linguagem. O que cabe ao educador é provocar questões do tipo: o mercado abre espaços para outras temáticas? Por que será que a indústria da cultura lança ao mercado músicas que tendem a repetir a mesma temática e os velhos signos desgastados? O que leva esse mercado a manter esses discursos: seria para obter maiores lucros; ou seria também por questões ideológicas que se negam a aceitar discursos que venham a pôr em choque os valores objetivados por esse mercado?
Com esse tipo de relação estabelecida com a cultura de massa, o educador não faria opressões com as escolhas estéticas desses alunos; acabaria com a relação de abismos entre eles; além de possibilitar abrir novas feridas que estavam despercebidas aos olhos dos alunos. Para mim o legal é saber que o aluno chega a sua casa, assiste a sua novela com a consciência de que aquilo tudo não existe meramente dentro de uma normalidade, mas que tudo aquilo pode ser questionado e que deve ser questionado. Que o aluno relaxe e goze, mas sabendo que o gozo também tem seu preço, e que preço!