quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A função pedagógica da arte nonsense

Por Vinícius Souza (Vina)

“Devolver o enunciado ao seu lócus”. Essas são as palavras ditas por Roosevelt Vieira Leite. Ora, o que nosso autor torto tenta mostrar é que a palavra só consegue ser compreendida pelos alunos quando ela passa a ser colocada na realidade desses alunos. No entanto, o conhecimento não deve ser apenas compreendido, e sim criticado, e esse é um ponto que eu e Roosevelt sempre fazemos questão de ressaltar, por isso que acreditamos ser necessário que o educador provoque o estranhamento, e isso só acontece quando novas linguagens são trazidas também para a sala de aula.
Por isso que acho imprescindível que o educador traga para suas aulas a arte nonsense, isto é, uma arte “sem-sentido” que foge dos modelos convencionais da arte e que questiona o que a sociedade nos impõe como verdade. A partir da arte voltada ao nonsense, podemos descobrir novos sentidos, até por que dentro do caos também existe a ordem. Ou seja, em meio ao óbvio transita o esquisito. Aí é onde eu começo a perceber o papel pedagógico da arte nonsense por enxergar nela uma grande contribuição para a conscientização do aluno acerca de seu lugar na sociedade.
Esse tipo de arte, justamente por não nos trazer discursos logicamente construídos, possibilita com que através desse não-esperado, o aluno passe a exercitar o seu senso de criatividade e crie um novo sentido a partir da interpretação que de forma independente ele passa a fazer de acordo com os caquinhos deixados por ela. Afirmo isso, pois nesse tipo de arte, a construção quem faz é o receptor e não o autor, pois na arte nonsense a proposta é deixar o público seguir sua própria leitura da obra, visto que ela não se quer acabada, daí por que temos a impressão de que ela não tem sentido.
Por isso que eu acredito que ao possibilitar que os indivíduos construam suas interpretações de acordo com seus pontos de vista, a arte nonsense faz com que esses sujeitos com um tempo passem a ter menos receio em questionar os modelos legitimados pela sociedade. Acho que o educador se utilizando da arte nonsense retira grandes dificuldades dos alunos sentidas pelo menos por mim em minhas aulas de sociologia que é o medo de errar, a partir do instante em que os alunos reconhecem que são capazes de produzir novos sentidos por não esperarem a verdade dada por um modelo.
A arte nonsense pode permitir que o aluno perceba, por exemplo, que mesmo estando em uma realidade aparentemente lógica, ele vive em meio a uma infinidade de contradições. A partir da arte nonsense o aluno pode vislumbrar novas questões e reconhecer que nem sempre os modelos impostos pela sociedade são justos ou harmônicos como eles querem demonstrar que são, que o que é dito como verdade não necessariamente é inquestionável, que a ficção não necessariamente passa longe da realidade, assim como um ato desviante não necessariamente leva ao erro.
É claro que essa disponibilidade em produzir novos sentidos não passa sem obstáculos. Sabemos que o medo dos alunos é resultado de uma educação ainda marcada por uma forte dose de autoritarismo. Por isso que aplicar ao conhecimento coisas que fazem parte de suas realidades como atentei no início do texto, é também um bom caminho, pois eles terão que se sentir familiarizados com o conhecimento, com os conceitos expostos em aula, para com isso, poderem criar suas próprias leituras e representações do mundo através do estranhamento produzido pela arte nonsense.
Por exemplo: um educador pode abordar sobre desigualdade social se utilizando de músicas ouvidas pelos alunos para trazer de forma mais clara o assunto abordado. Como nesse momento o aluno ainda se apropriou apenas do entendimento do conceito, o educador pode propor um debate para uma próxima aula pedindo que os alunos tragam revistas, jornais que abordem noticias de assuntos que interessam a eles que podem ser relacionados com o conteúdo. Na outra aula o educador faz o debate e reforça o conteúdo que foi dado tornando-o mais familiarizado ao aluno.
Posteriormente o educador apresenta uma gravura nonsense, por exemplo. Minha opinião acerca do nonsense como caminho para produzir o estranhamento, se deve ao fato de eu acreditar que o nonsense pode mostrar ao aluno que não necessariamente o que se encontra “fora da normalidade” está fora da possibilidade de ser pensado. Para mostrar aos alunos que dentro do “caos” se produz sentidos, o educador pode pedir aos alunos que recortem palavras das noticias que trouxeram. Cada aluno pega cinco palavras de forma aleatória e a partir disso produzem um texto articulando a gravura com o tema exposto em sala.
Produzido o texto, os alunos vão perceber que as palavras soltas produziram sentido através dos textos que foram sendo criados, como podem perceber que foram capazes de articular o nonsense com um tema concreto como a desigualdade. Com isso, o aluno pode verificar que o “fora-do-sentido” pode produzir sentido e o que é dito como “verdade” pode ser re-questionado. Isso faz com que o aluno note que a realidade pode ser recriada, que não existem verdades absolutas. Articulando o tema desigualdades sociais, o educador pode mostrar ao aluno que socialmente essas verdades não existem por si mesmas, mas que representam interesses de classe.
Por isso que eu acho que a familiaridade e o estranhamento devem existir na educação. A familiaridade permite ao aluno compreender o conceito; já o estranhamento faz com que o aluno produza novos conhecimentos. Enfim, acredito que o educador tem que colocar o enunciado dentro do seu lócus, utilizando-se da cultura compartilhada pelos alunos; mas também tem que retirar esse enunciado de seu lócus como forma de fazer com que aluno parta para o estranhamento e não compreenda o conteúdo exposto em sala sem questioná-lo, sem sinalizar as suas contradições.

Um comentário:

  1. É ISSO MEU CARO. UM BOM TEXTO. RESUME-SE NO JÁ DISCUTIDO. ESTIMULAR OS SENTIDOS. ROOSEVELT

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