Por Vinícius Souza (Vina TorTO)
Devido ao belíssimo texto de Roosevelt acerca da vanguarda e do brega, somado ao intenso debate que tem se construído acerca desse tema, eu me vejo cada vez mais envolvido nessa construção de idéias, e por isso mesmo, esta semana quero falar sobre a forma como a escola lida com à familiaridade e o estranhamento que eu enxergo na música brega e na música de vanguarda.
Vejamos: a música brega é reconhecida como uma música demasiadamente simples. Ao prestarmos atenção no repertório desse universo musical , perceberemos que ele trará constantemente discursos que estão a nossa volta a todo instante em nosso dia a dia. A forma como são construídas as letras das músicas, revela-nos o que há de mais óbvio e de mais familiar em nosso cotidiano.
Já a música de vanguarda é reconhecida como uma música demasiadamente complexa. Podemos perceber que seus discursos musicais são diferentes do que estamos acostumados a ouvir cotidianamente. A música de vanguarda nos revela o não-óbvio, o que termina por nos provocar um estranhamento ao invés de uma familiaridade assim como acontece na música brega.
Os docentes deveriam propor o diálogo com a familiaridade e o estranhamento encontrados nessas músicas. Deveriam aproveitar a familiaridade da música brega, por exemplo, para aproximar o conhecimento com o cotidiano do aluno, assim como aproveitar o estranhamento da música de vanguarda fazendo o aluno observar que certas regras legitimadas também necessitam ser requestionadas.
Porém, infelizmente a escola termina não reconhecendo nem a música de vanguarda, uma vez que o discurso dessa estética se encontra distante do cotidiano do aluno por ser monológico como bem apontou Roosevelt; assim como não reconhece a música brega pelo fato da escola representar claramente os interesses ideológicos e estéticos dos setores privilegiados da sociedade.
Acredito que os docentes e a escola, ao invés de ficarem perdendo tempo com conteúdos descontextualizados da realidade dos alunos e insistindo nas classificações preconceituosas do que é "bom" e do que é "ruim", deveriam era propor uma análise crítica dessas duas tendências musicais, fazendo o aluno refletir acerca dos prós e dos contras de cada uma delas.
Ao trazer a música brega, por exemplo, enxergá-la como uma identificação espontânea de boa parte do alunado, aceitando-a enquanto gênero musical, mas também pensar que a dificuldade do público em muitas vezes aceitar músicas que fujam do modelo mais corriqueiro como o da música brega, pode ser reflexo de uma cultura escolar rotineira e indisposta a estimular um olhar curioso em seus alunos acerca da diversidade cultural.
Os docentes deveriam usar a música de vanguarda para estimular a criatividade dos alunos por ela propor a recriação dos modelos, mas também provocar reflexões acerca das exclusões que o saber constrói, usando como exemplo, a ausência da própria música de vanguarda nas escolas, provando assim, o quanto à educação, mesmo estando inserida em um contexto democrático, ainda é segregadora.
Acredito que seja importante articular a música brega com a música de vanguarda, afinal, a escola como extensão da sociedade, deveria reconhecer que a nossa vida social é marcada por regras que nos são familiares assim como os códigos corriqueiros da música brega, mas também nos estranhamos com essas regras assim como faz a música de vanguarda ao questionar os modelos legitimados.
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