domingo, 27 de fevereiro de 2011

A música de vanguarda e a música brega nas escolas II

Por Vinícius Souza (Vina TorTO)

Devido ao belíssimo texto de Roosevelt acerca da vanguarda e do brega, somado ao intenso debate que tem se construído acerca desse tema, eu me vejo cada vez mais envolvido nessa construção de idéias, e por isso mesmo, esta semana quero falar sobre a forma como a escola lida com à familiaridade e o estranhamento que eu enxergo na música brega e na música de vanguarda.

Vejamos: a música brega é reconhecida como uma música demasiadamente simples. Ao prestarmos atenção no repertório desse universo musical , perceberemos que ele trará constantemente discursos que estão a nossa volta a todo instante em nosso dia a dia. A forma como são construídas as letras das músicas, revela-nos o que há de mais óbvio e de mais familiar em nosso cotidiano.

Já a música de vanguarda é reconhecida como uma música demasiadamente complexa. Podemos perceber que seus discursos musicais são diferentes do que estamos acostumados a ouvir cotidianamente. A música de vanguarda nos revela o não-óbvio, o que termina por nos provocar um estranhamento ao invés de uma familiaridade assim como acontece na música brega.

Os docentes deveriam propor o diálogo com a familiaridade e o estranhamento encontrados nessas músicas. Deveriam aproveitar a familiaridade da música brega, por exemplo, para aproximar o conhecimento com o cotidiano do aluno, assim como aproveitar o estranhamento da música de vanguarda fazendo o aluno observar que certas regras legitimadas também necessitam ser requestionadas.

Porém, infelizmente a escola termina não reconhecendo nem a música de vanguarda, uma vez que o discurso dessa estética se encontra distante do cotidiano do aluno por ser monológico como bem apontou Roosevelt; assim como não reconhece a música brega pelo fato da escola representar claramente os interesses ideológicos e estéticos dos setores privilegiados da sociedade.

Acredito que os docentes e a escola, ao invés de ficarem perdendo tempo com conteúdos descontextualizados da realidade dos alunos e insistindo nas classificações preconceituosas do que é "bom" e do que é "ruim", deveriam era propor uma análise crítica dessas duas tendências musicais, fazendo o aluno refletir acerca dos prós e dos contras de cada uma delas.

Ao trazer a música brega, por exemplo, enxergá-la como uma identificação espontânea de boa parte do alunado, aceitando-a enquanto gênero musical, mas também pensar que a dificuldade do público em muitas vezes aceitar músicas que fujam do modelo mais corriqueiro como o da música brega, pode ser reflexo de uma cultura escolar rotineira e indisposta a estimular um olhar curioso em seus alunos acerca da diversidade cultural.

Os docentes deveriam usar a música de vanguarda para estimular a criatividade dos alunos por ela propor a recriação dos modelos, mas também provocar reflexões acerca das exclusões que o saber constrói, usando como exemplo, a ausência da própria música de vanguarda nas escolas, provando assim, o quanto à educação, mesmo estando inserida em um contexto democrático, ainda é segregadora.

Acredito que seja importante articular a música brega com a música de vanguarda, afinal, a escola como extensão da sociedade, deveria reconhecer que a nossa vida social é marcada por regras que nos são familiares assim como os códigos corriqueiros da música brega, mas também nos estranhamos com essas regras assim como faz a música de vanguarda ao questionar os modelos legitimados.


VISITEM: www.movimentotorto.com

sábado, 26 de fevereiro de 2011

A música de vanguarda e a música brega nas escolas I

Por Vinícius Souza (Vina TorTO)

Pretendo propor nesta semana uma abordagem em relação à música de vanguarda e à música brega, pensando esses dois universos dentro do cenário educacional.

Tanto a denominação vanguarda quanto brega foram construídas por meras intenções de poder. A vanguarda foi associada a uma música “além do tempo” e como uma música crítica pelo fato de seus consumidores estarem associados ao público universitário. Já o brega foi uma denominação associada a algo alienante e clichê, por seus artistas, diferente dos da vanguarda, serem pessoas que geralmente não possuem muita escolaridade.

Mesmo que eu veja na música de vanguarda um caminho para provocar curiosidade nos discentes, ela pode não gerar muitos efeitos positivos. Como eu já expus semana passada, se mesmo sendo consumida por universitários, essa estética se encontra pouco consumida por uma boa parte deles e pelos profissionais provenientes desses meios como os próprios docentes, como podemos esperar em uma sala de aula, estimulo e interesse de um aluno de ensino médio por esse tipo de música?

Portanto, como observei em textos anteriores, a música de vanguarda é válida para ser aplicada nas escolas por questionar os modelos legitimados, mas também não surte efeito pelo fato dessa música se encontrar distante do cotidiano dos discentes e de muitos docentes, sem contar que muitas vezes o seu público-consumidor, como forma de manter seu prestigio, faz dela uma construção incompreensível e inatingível. Outro ponto se refere à educação: nosso sistema educacional, caracterizado pelo controle social, não comunga com a natureza liberta dessa música.

Já com a música brega a situação muda. Apesar de ainda ser na maioria das vezes consumida por setores mais periféricos, ela estabelece um canal de comunicação com a sociedade chegando a extrapolar as barreiras sociais. É por isso que acredito no ganho das escolas ao utilizarem essa música, afinal, uma educação de qualidade se dá através do diálogo que o docente termina por estabelecer com o seu aluno buscando entender o cotidiano desse aluno.

No entanto, apesar de eu visualizar um ponto frutífero em trazer a música brega para a sala de aula por ver nela a possibilidade de dialogar com a realidade dos alunos, eu penso que a nossa educação é reflexo também dos interesses simbólicos dos setores prestigiados da sociedade. Ou seja, os grupos sociais, para se afirmarem em seus espaços, demarcam fronteiras entre eles e os demais grupos como forma de se distinguirem e de preservarem seu poder na hierarquia estética e social.

Por exemplo: se eu sou considerado intelectual para a sociedade, para demarcar meu espaço, nego a utilização da música brega em minha aula por ela ser vista como algo simplório e de mau gosto e por se encontrar com maior freqüência em um público sem muita instrução escolar e sem prestigio social. Infelizmente é isso que muitas vezes acontece: os docentes reafirmam seus valores estéticos em salas de aula de acordo com o que é legitimado e imposto pelo seu grupo.

Percebemos essa imposição estética nos livros também. Nos livros de história, por exemplo, lemos sobre a MPB na ditadura militar, mas não encontramos nada acerca da música brega. Em literatura, podemos observar que os artistas e estéticas citadas, são as que interessam a uma elite intelectual. Se olharmos a gramática, o discurso legitimo é apenas aquele oficializado pelos que detêm de um saber formalizado. Assim acontece com a geografia, a matemática, a sociologia, etc.

Portanto, com relação à música brega, também visualizo uma importância dela nas salas de aula por ela se encontrar ligada ao cotidiano dos alunos, no entanto, muitas vezes ela não surte efeitos pelo fato dos docentes necessitarem reafirmar seu lugar de prestigio, esquecendo da importância da vivência cultural do seu discente para uma boa aprendizagem, preferindo as velhas classificações do que é uma música “mais” importante e “menos” importante para serem discutidas nos ambientes escolares.

(Este texto foi publicado no Torto http://www.movimentotorto.com/ no dia 14 de fevereiro de 2011 e postado no Cinform Online www.cinformonline.com.br/vinatorto no dia 15 de fevereiro do mesmo ano).