sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A educação do ideal longe do ideal

Enquanto professor, muitas vezes detecto nos discursos dos meus colegas de profissão uma preocupação preponderantemente ideal.  Não há como negarmos o papel da educação em tornar o aluno uma pessoa ética. O problema é que esse discurso tende a fazer do indivíduo um ser ideal cobrando dele condutas muitas vezes desumanas por não vê-lo como humano. Quando digo humano, eu me refiro às fraquezas, contradições, potencialidades, sonhos e limitações de cada um.

Vejamos: vamos supor que o professor traga o tema corrupção para a sala de aula. Obviamente que a educação, por ter um papel de formar o aluno não apenas para o mercado, mas também para ser um cidadão em exercício crítico e consciente acerca do mundo, vai tentar mostrar as perdas causadas por um ato corrupto. Porém, eu tenho que questionar ao aluno se esse ato corrupto simplesmente pertence a uma conjuntura política ou se também não está em todos nós.

Eu acho que as questões devem ir mais afundo como: quem nunca se corrompeu? Quem alguma vez não se viu beneficiado em prol do outro? Será que um humano conseguiu alguma vez atingir a perfeição? Existiria corrupção se ela não beneficiasse a quem busca por ela? Por outro lado, quantos prejuízos são provocados pela corrupção? O que significa corromper? Desviar das normas também não faz parte da natureza humana? Até que limite isso é benéfico ou prejudicial?

Apesar da importância do homem ético, não podemos fazer os alunos deixarem de enxergar que eles também provocam deslizes que, apesar de serem prejudiciais a um convívio social, são importantes. Devemos mostrar que através dos deslizes, nós vamos buscando nosso amadurecimento, contudo, por vivermos em sociedade, a gente precisa buscar atuar de forma ética. Os professores devem mostrar que a ética é importante, mas que não somos perfeitos, que vivemos em contradição.

O acidente, o deslize, o imprevisível, o risco, são palavras que devem existir quando o objetivo da educação é tornar o humano consciente de si. Não posso dizer que sou consciente de mim se não me reconheço enquanto um ator importante para a construção social a partir do momento em que eu não reconheço a importância da história por não perceber que a realidade é dinâmica. Não enxergo o dinamismo da vida por não pensar as contradições, por viver apenas o ideal.

Viver o ideal de forma extrema leva a arrogância e a ingenuidade. A arrogância se dá quando eu não aceito o valor do outro por não perceber que, por eu ser constituído de erros e acertos, também estou propício a acertar e a errar. A intolerância emerge quando somos incapazes de nos desfazer do ideal. Se prender ao ideal também nos leva a ingenuidade por nos iludirmos em viver a realidade como se ela fosse harmônica, quando na verdade estamos diante de muitos conflitos sociais.

Mostrar apenas o ideal nos leva também a alimentarmos a culpa e a hipocrisia. Se eu espero do outro um comportamento totalmente correto, inevitavelmente eu sentirei culpa quando não me enxergar capaz de atuar de forma totalmente correta. Digo inevitavelmente, pois por sermos humanos, nós vivemos em busca do ideal, mas o ideal como o próprio termo diz, é apenas ideal. É por isso que vivemos em constante exercício, conflito, negociações e luta com as nossas contradições.

Por outro lado, o indivíduo, além de sentir culpa, pode passar para um comportamento hipócrita. Se eu não me enxergo enquanto contradição, eu vou cobrar do aluno aquilo que eu não sou capaz de fazer. É por essa necessidade de querer forçosamente mostrar o ideal, que muitos professores se negam a aceitar o convívio com os alunos fora do ambiente educacional, afinal, o aluno não pode reconhecer o professor como humano, uma vez que esse professor se mostra ideal.

Nada me leva a ter que afirmar que eu sou capaz de me realizar enquanto perfeição, afinal, como qualquer humano, eu vivo buscando me aperfeiçoar dia após dia e me encontro diante de muitas contradições. Como qualquer humano, eu vivo questionando inclusive minha própria postura profissional. O mais interessante é quando o professor também mostra que o fato dele não ser ideal, não significa que ele não exercite uma postura ética tanto em sua área profissional, quanto pessoal.

O mundo está muito longe de ser um “mar de rosas” ausente de dúvidas, de conflitos e de contradições. Mostrar ao aluno uma realidade afogada em perfeições e harmonias é estimulá-lo a não se reconhecer e nem reconhecer o outro. Mostrar apenas um lado da moeda é fazer com que o aluno não aprenda a encontrar caminhos para re-solucionar não só os seus, como também os caminhos da sociedade, afinal, só buscamos caminhos quando visualizamos a contradição da vida.

A bondade deve existir, mas nem sempre somos bons. A virtude deve ser estimulada pela educação, mas a virtude não existe sem o vício. Só sei da existência da virtude quando eu vivo o vício. O meu papel no mundo é buscar romper com esse vício, mas quem me garante que esse vício vai ser rompido? Obviamente que isso não significa que devemos naturalizar o vicio, mas também optarmos em enxergar a realidade apenas enquanto perfeição é romantizar algo que não existe.

Somos fracos por sermos incompletos, o que não nos impede de buscar superar nossos equívocos. Contudo, eu não posso negar que nem sempre o que eu busco para mim eu posso conquistar em sentido pleno e absoluto. A educação deve mostrar que o indivíduo precisa aprender a encontrar caminhos que tragam resultados positivos e éticos, mas mostrar que paralelo a isso, um “outro eu” o estimula a outras posturas nem sempre coerentes com o que se afirma como ideal.

Alimentar os alunos apenas com os discursos do ideal, é estimular o caminho que busca desviar a ação responsável do indivíduo com o mundo. Se eu não reconheço que não sou perfeito, que constantemente me transformo por me encontrar diante de dúvidas com a minhas próprias certezas, o que eu encaro como errado não é culpa minha, mas do outro. Esse culpabilizar o outro faz o sujeito não aprender a admitir suas ações e as conseqüências provocadas por suas ações.

Para finalizar, eu gostaria de dizer que definitivamente não sou a favor de uma educação voltada apenas para o real. Eu acho que o real apenas enquanto real desumaniza o sujeito por não fazê-lo se enxergar enquanto um agente capaz de projetar sonhos e utopias para o aperfeiçoamento da sociedade no futuro. Por outro lado, pensar a educação voltada apenas ao ideal, é fazer com que o aluno passe a não enxergar a realidade com seus obstáculos, injustiças e contradições.

Se eu quero o ideal, eu tenho que pensar como se buscar esse ideal. Buscando caminhos, eu posso provocar um olhar mais crítico no aluno por ele enxergar a realidade sem torná-la apenas algo permeado por obstáculos ou ilusões. O aluno tem que visualizar a realidade sem deixar de alimentar seus sonhos, mas sem fazer com que esses sonhos se acomodem em um real distante do que se idealiza. O que a educação não pode é relegar um olhar acerca da dinâmica contraditória da vida.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Alojamento do IFAL: uma visão sociológica

Por Vinícius Souza (Vina)


Na verdade este texto vem da angústia de um sociólogo. Muitas vezes me sinto bastante discriminado por ter apenas cinqüenta minutos de aula por semana para cada turma. Esse tempo restrito me dificulta elaborar projetos mais complexos em sala de aula. Outro ponto diz respeito à ideia que se faz da sociologia como uma disciplina meramente divagadora, abstrata e sem nenhuma aplicação concreta.

A sociologia não só é uma disciplina aplicável às nossas experiências concretas, como estimula um olhar mais consciente acerca da forma pela qual a sociedade, as instituições, os grupos sociais e a cultura se organizam. Além disso, a sociologia tem um papel claramente político e também abre caminhos para possíveis emancipações dos alunos enquanto sujeitos críticos e questionadores.

Para mostrar que a sociologia não se reduz a meras divagações, eu resolvi apresentar alguns conceitos sociológicos articulando-os com as práticas sociais vivenciadas pelos servidores do IFAL Campus Piranhas no alojamento cedido pela CHESF. Esses conceitos são referentes à interação, às assimilações e aos conflitos, à organização, às regras, aos papéis e às funções, à diversidade de valores, à cultura e à formação dos grupos sociais.

Pois bem: viver em sociedade implica em mantermos constantemente relações com as pessoas. No convívio social, inevitavelmente passamos a nos interagir com o outro. É diante dessa interação que ensinamos e ao mesmo tempo aprendemos. Ao estabelecermos essas trocas com os indivíduos, temos como resultado novas formulações de valores, uma vez que é na sociabilidade que a gente se apropria e constrói outras visões de mundo.

Não há como fugirmos desse constante aprendizado pelo qual passamos a adquirir em nosso cotidiano social a partir dessas diversas formas de ver, pensar e agir. Apesar de nos encontrarmos em meio à chamada cultura de massa, a qual tem se provado bastante eficaz em disseminar formas de comportamento para todas as partes do país, não há como negarmos que apesar de tudo, cada cultura traz sua particularidade histórica.

É nessa história que os indivíduos ao longo de todo um processo de incorporação de valores, costumes e hábitos, vão construindo sua personalidade social. Contudo, cada indivíduo termina por produzir novos conhecimentos no instante em que passa a unir sua leitura de mundo com novas leituras ao se deparar com uma nova organização social e cultural trazida por outro indivíduo, que assim como ele, traz outros valores.

Se pensarmos essas trocas culturais entre os indivíduos no alojamento da CHESF onde ficam alguns dos servidores do IFAL, averiguaremos que esse diálogo pluricultural é bastante notório, principalmente se tratando do Campus de Piranhas, o qual recebe servidores de todas as partes do país. Cotidianamente se convive com indivíduos da Bahia, Alagoas, Sergipe, Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Minas Gerais etc.

Cada servidor ao chegar em solo Piranhense, termina por manter diálogos com outras realidades culturais. Além de cearenses dialogarem com mineiros e pernambucanos, por exemplo, também apreendem hábitos, valores, costumes piranhenses, assim como os piranhenses apreendem valores de outras partes do país. É nesse apreender que os valores vão se dialogando, se confluindo e provocando novos olhares, novas culturas.

São nessas trocas que os indivíduos vão agregando em seu repertório vocabular novos termos como gírias, por exemplo, vão infiltrando novas informações, sejam elas religiosas, políticas, artísticas. É nessa diversidade que os sujeitos sociais também convivem com novos sabores através da culinária, assim como também passam a conhecer a história de cada região, seus pontos turísticos, seus problemas comuns ou distintos de suas cidades, etc.

Porém, seria ingênuo afirmarmos que as interações apenas produzem efeitos positivos na convivência entre os atores sociais. Vejamos: se por um lado nós podemos afirmar que a diversidade cultural provoca um intercâmbio plural e rico, uma vez que dialoga com uma imensa gama de formas de conceber o mundo, por outro, nem sempre essa tal diversidade se reduz às trocas. A diferença também estimula o conflito.

Muitas vezes podem ocorrer desentendimentos dentro dos próprios membros que compõe um grupo que pernoita em determinado quarto do alojamento. Isso é inevitável, pois cada indivíduo traz hábitos diferentes, valores diferenciados de seus meios sociais. Sabemos que nem sempre um comportamento e um hábito de um indivíduo é compreendido ou aceito pelo outro que compartilha com ele do mesmo espaço.

Talvez por se encontrarem em meio a profissionais que atuam dentro de uma mesma instituição, os membros de cada grupo que convive em determinado quarto, podem manter uma espécie de acomodação entre eles, ou seja, reconhecem a convivência de determinados hábitos nem sempre dialogáveis, mas que para se evitar uma possível colisão de valores, terminam por se submeter à rotina.

Mas mesmo havendo a possibilidade de acomodações nas relações sociais estabelecidas pelos servidores no alojamento, pode se haver uma forma de tentativas de entendimentos entre eles como forma de resolucionar os conflitos. É nessa busca por evitar conflitos que eles irão negociar novas regras, provocando uma nova forma de apropriação do espaço, alterando a organização e as regras do lugar.

Se fizermos uma análise acerca do alojamento da CHESF, perceberemos que essa lógica sociológica não cai em uma realidade abstrata. Ao contrário. Ela se revela cotidianamente no plano concreto. No alojamento, cada quarto possui um número de servidores. Para conviver entre eles, terminam por estabelecer formas de acordos. Para isso, os indivíduos de cada grupo prescrevem funções e papéis para cada um.

Para que eles possam conviver de forma mais amistosa possível, eles vão ter que negociar as obrigações, assim como, delimitar o espaço de cada um. Nota-se que nessa demarcação e atribuição de papéis e funções, os servidores inevitavelmente determinam regras e organizam o espaço de cada quarto como forma de manter uma convivência mais harmônica possível entre eles.

Como no caso do Campus de Piranhas ocorre uma mudança constante de servidores devido às remoções, cada grupo que se apropria de determinado quarto tende a frequentemente modificando sua política de convivência. Nessa alteração o grupo vai redefinindo sua organização, alterando seu cotidiano, assim como sua interação com o novo sujeito. Nessa dinâmica, os papéis e as funções vão ser novamente dialogados.

Vale lembrar que ao longo da convivência, dentro de um mesmo quarto podem se formar uma variável de novos grupos, assim como podem se formar outros grupos com indivíduos de quartos diferentes. Portanto, as composições de grupos não só se estabelecem no interior do quarto, como também fora dele. Externamente ou internamento podemos detectar uma relação de aproximação maior entre determinados indivíduos.

Isso ocorre, pois no instante em que os indivíduos conseguem assimilar os valores do outro, inevitavelmente eles encontram nesse outro uma identidade, compactuando com os novos hábitos e valores, como também redefinindo e atualizando os seus valores a partir das trocas estabelecidas com o outro. É no grupo social que encontramos uma pluralidade de sujeitos que possuem objetivos em comum entre eles.

Por outro lado, como a arena social é permeada por uma diversidade de olhares, aqueles indivíduos que não se identificam entre eles, terminam por pertencer a outros grupos, visto que, cada grupo social, por possuir regras, códigos de comunicação, comportamentos, valores, hábitos e costumes, termina agregando indivíduos que compactuam com esses valores e os que não compactuam terminam por formar outros grupos.

É muito nítido observarmos alguns grupos sociais formados entre os servidores. Claro que não podemos fazer uma idéia rígida e imutável acerca dos grupos, mas é notório que existe uma recorrência muito maior de determinados indivíduos em certos grupos do que em outros. Isso é bastante normal, uma vez que a identificação a certo grupo resulta de opiniões que tendem a ser mais codificadas, aceitas, e, portanto, compartilhadas entre eles.

Como podemos notar, é a partir das interações, dos contatos entre as diversas formas de relações sociais, que ocorrem as trocas culturais, ou seja, no instante em que um indivíduo com visões de mundo diferenciadas e oriundas de sua historia e de seu meio, influencia e provoca novas formas de assimilação no outro, como também provoca conflitos, colisões de valores e estranhamento acerca dos valores e hábitos do outro.

Contudo esses conflitos podem ser negociados entre os sujeitos envolvidos com o outro. Essa negociação assegura uma forma de ao menos se tentar produzir uma convivência mais pacífica com o outro e com a diversidade cultural. Para que essa negociação se estabeleça de forma saudável, os indivíduos buscam criar regras, delimitar espaços, assim como papéis e funções como forma de gerar uma organização entre eles.

Eu tentei mostrar também que em meio a essas trocas e aos conflitos, diversos grupos vão se formando e se configurando de forma diferenciada um do outro. Essa proliferação de grupos resulta de valores que tendem a ser mais compartilhados entre determinados indivíduos do que em outros. A tendência disso é que haja indivíduos que se relacionam de forma mais recorrente entre uns do que em relação a outros.

Como eu atentei no início do texto, a sociologia, apesar de ser uma disciplina ainda bastante desvalorizada em relação às outras, possuindo míseros cinqüenta minutos semanais de aula em cada turma, deveria ser repensada na grade curricular. Como eu tentei mostrar no texto, as práticas inevitavelmente são de natureza sociológica e a sociologia tem o objetivo de compreender o funcionamento dos grupos e da sociedade em geral.

Antes de ser uma mera abstração permeada de conceitos vagos, na sociologia a vida pulsa, afinal, construímos a sociologia ao longo de nossas experiências sociais, até por que nenhum humano consegue viver fora da sociedade. O processo de sociabilidade é um fato inerente a qualquer um, uma vez que não existem humanos sem valores, e os valores são resultados dos conflitos e das trocas estabelecidas na sociedade.

Não só isso. A sociologia é capaz de fomentar questões referentes à diversidade, à cidadania, à cultura, uma vez que, a partir do olhar sociológico, nós podemos compreender que a sociedade é permeada por uma pluralidade de valores, e que isso pode servir para colocar os indivíduos a pensar acerca de seus preconceitos e intolerâncias no momento em que eles se reconhecem como parte desse trânsito e dessa troca.